quarta-feira, 16 de maio de 2012

O rosto feminino do franciscanismo


O ROSTO FEMININO DO FRANCISCANISMO

Fr. Fabiano Aguilar Satler, ofm

O primeiro rosto do franciscanismo que eu conheci foi feminino. No ano de 1991, chegaram à minha pequena e interiorana cidade natal na região serrana do estado do Espírito Santo quatro irmãs da Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição: Leocádia, Rosa Nair, Raquel e Joana. Irmã Leocádia foi substituída pouco depois por Ir. Odélia. Irmã Raquel já se encontra na bem-aventurança eterna, depois de uma luta contra um câncer que a vitimou ainda jovem. Joana deixou a vida religiosa e trabalha como enfermeira. Rosa está, neste momento em que escrevo, em missão na Costa do Marfim. Carrego em meu coração em relação a todas e a cada uma delas um afeto e um carinho que, apesar da distância geográfica e cronológica, mantêm-se acesos e aquecem o meu coração.

À distância, sentado junto às oliveiras da igrejinha de São Damião, em Assis, com o mesmo sibilar do vento no meio das árvores e o mesmo canto dos pássaros do tempo de Clara e de Francisco, pergunto-me o que havia de tão marcante naquele grupo de religiosas a ponto de, com poucos meses de pura convivência e proximidade com elas, ter dado uma mudança de 180 graus na minha vida de universitário e ter abraçado, também eu, a vida franciscana? Houve algo naquelas mulheres que, em conjunto e individualmente, transformou a minha vida. Havia um perfume, um cheiro de algo diferente no ar que tocou as cordas do meu coração de uma maneira que eu teria dificuldade em descrever. Que perfume era esse? A resposta a essa pergunta é importante para que eu possa compreender e viver, como elas, aquilo que, acredito, sejam alguns elementos que ajudam a formar a identidade e o carisma franciscanos.

A primeira nota daquele perfume que carrego em minha memória afetiva é o acolhimento. Desde o meu primeiro contato com elas, fui prontamente acolhido. Quando eu estava na cidade - e, naquele ano, foram pelo menos três meses, devido a uma prolongada greve de professores da universidade - encontrava um tempo para estar com elas: tomar um cafezinho, jogar conversa fora, tomar juntos o jantar, rezar junto com elas uma oração complicada para mim, na altura, chamada Liturgia das Horas. Com elas rezei, pela primeira vez, uma celebração de nome estranho chamada Trânsito de São Francisco. Da boca da Raquel saíram as palavras que despertaram em mim o desejo transformado em determinação de ir para a missão ad gentes. Com Joana descobri que a alegria do Reino de Deus já pode ser vivida nesta vida. Foi essa a percepção imediata vinda delas, como a primeira sensação provocada em nosso olfato assim que se abre um pequeno frasco de perfume.

Depois que esse aroma assentou, comecei a notar algo mais sutil, uma nota diferente e mais persistente naquele perfume: bom humor e uma certa finesse, a versão feminina do cavalheirismo. Aquele era um grupo de irmãs bem-humoradas. Volta e meia, reunidos em torno da mesa, estávamos rindo de situações cotidianas, como na ocasião em que a Ir.  Leocádia, aflita, precisando levar reserva eucarística para um culto que seria celebrado em uma comunidade rural, teve que enfrentar a birra do zeloso monsenhor Aníbal, que escondera a chave do sacrário. Onde já viu, comunhão sem missa e, pior ainda, sem confissão antes, raciocinava ele, em seu genuíno zelo e santidade tridentinos. Se o humor é amor com h - e eu acredito que seja - aquele era um grupo de irmãs que se amavam e amavam as demais pessoas que com elas conviviam. Aquele bom humor trazia uma certa leveza, mas, jamais, superficialidade a elas. Ao bom humor associava-se uma finesse que dava uma certa elegância a elas. Com a Ir. Rosa aprendi que há uma maneira adequada de descarcar a banana e a laranja. Com a Ir. Odélia aprendi que há uma ordem precisa entre homem e mulher ao subir e descer escadas. Ao subir, homem à frente da mulher. Ao descer, mulher à frente do homem. Descobri, depois, que se tratava de uma regra lógica do tempo em que todas as mulheres usavam saias e o decoro era tão grande quanto as saias que elas usavam. Mudou-se o tempo, permaneceu o costume. Hoje, tais memórias me causam um certo riso, por parecerem antiquadas. Mas, recordo-me de Francisco de Assis, que aqui pertinho, nas ruelas de Assis, após a sua conversão, continuou a cantar em francês o amor de Deus, mantendo um certo espírito cavalheiresco. Lembro-me, também, da necessidade de comportarmo-nos de maneira adequada, de acordo com a ocasião: seja em um jantar formal servido por um embaixador, seja em uma refeição familiar no interior da África, onde as mãos substituem os talheres, de acordo com o costume. Entre judeus ou gregos, devemos nos adequar à realidade com naturalidade e bom humor.

Finalmente, uma terceira nota, a mais persistente delas nesse perfume franciscano, é a unidade fraterna. Aquela era uma fraternidade de verdade. É certo que, como todo grupo social, pequeno ou grande, havia situações de conflito e tensão entre elas. Tais ocasiões devem ter sido administradas de maneira adequada, pois eu, como uma pessoa de fora, nunca percebi os sinais de tensão entre elas, ou mesmo a murmuração de uma em relação à outra. Em um momento particularmente tenso na vida da comunidade paroquial, em que, a começar pelo pároco, todos ficaram doentes e muito distantes do evangelho proclamado e ouvido na igreja, aquelas irmãs representaram o único elemento de estabilidade naquela comunidade em ruptura com o evangelho. Nesse sentido, olhando para trás, percebo como foi providencial a ida e a presença delas em minha cidade naquele momento preciso. É interessante notar, em um contexto mais amplo da Igreja,  um certo desprezo com que muitas comunidades de irmãs são vistas pelos membros do clero, um desprezo mal disfarçado que beira à misoginia. Em muitas situações de conflitos e de instabilidades decorrentes de uma parte do clero com personalidade doentia, são elas que, junto com os demais fiéis, mantém viva a chama da fé e da unidade da Igreja. E aquela era uma comunidade que rezava. Uma recordação ficou marcada em mim: nas férias de fim de ano do meu postulantado franciscano, houve uma reunião com o representante enviado pelo bispo, no momento em que a tensão na comunidade chegou ao ápice com a remoção do pároco. Diante dos ânimos exaltados dos membros daquela comunidade dividida, reunidos no salão bem ao lado da residência das irmãs, Ir. Odélia chamou-me: vamos para a capela rezar juntos, pois, diante de tanta insensatez, somente Deus.

É claro que as irmãs faziam algo. Faziam o trabalho samaritano de enfermeiras na Santa Casa local e trabalhavam todas na pastoral paroquial, tanto nas comunidades rurais, quanto na sede. Também nesses trabalhos transparecia esse perfume franciscano, isto é, o que elas eram.

Olhando o que descrevi, podemos pensar de maneira acertada: não parece haver nesse modo de ser nada que não seja comum a qualquer grupo de irmãs, de qualquer ramo de congregação ou espiritualidade que seja. Na verdade, não se trata nem mesmo do modo de ser particular da vida consagrada na Igreja. O que elas eram e são deve ser o projeto de vida de qualquer batizado. Isso significa, então, que não há um perfume em que possamos colocar no rótulo do seu frasco perfume franciscano e que seja distinto de um perfume carmelita ou jesuíta?

Já não me encontro mais em Assis, mas, no Monte Alverne. Sentado aqui em um descampado aos pés do monte, onde o bosque cede espaço à relva misturada às flores, tenho diante de mim Francisco estigmatizado na gruta lá encima. O monte Alverne foi, na vida de Francisco, o ápice da sua identificação com o Cristo crucificado. Depois do Alverne, só restava a Francisco um último passo: ser consumido pelo Amor Trinitário na ressurreição. Olhando para trás, para todo o itinerário da vida de Francisco, o que encontramos? Nada de excepcional, sob certo ponto de vista: a compaixão com os leprosos, os mais excluídos do seu tempo, o amor fraterno entranhado pelos seus primeiros companheiros e por Clara, uma profunda reverência pelo Criador diante da beleza das suas criaturas, como estas que tenho diante dos olhos, o sentido de comunhão com a Igreja e com os seus pastores, a reverência pelos sacramentos, um desejo ardente de seguimento e de identificação com o Cristo encarnado e crucificado.  Tudo isso harmonizou-se de forma única aqui nas terras da Umbria, da Toscana e do Lascio, na pessoa de Francisco. Nele, a humanidade aflorou em um grau tal que podemor afirmar como São Boaventura: Francisco tornou-se um alter Christus, um outro Cristo, que é o humano por excelência. Em seu sermão sobre os estigmas de Sao Francisco, Pe. Antônio Vieira dirá o mesmo que Boaventura: vestis a Cristo e tereis Francisco; desnudais Francisco e tereis Cristo. E é exatamente isso que aquelas irmãs despertaram em mim: um senso de humanidade, uma busca de humanização como o único caminho possível em direção a Deus, tal e qual nos foi revelado pela encarnação do Verbo.

Talvez seja esse o nome do rótulo do perfume franciscano: humanização. Mas, esse é, voltamos a afirmar, o rótulo do próprio cristianismo. A nossa cristificação coincide com a nossa humanização. Essa humanização não é um processo egocêntrico e solitário. É um processo feito de mãos dadas com todas as criaturas que o Senhor nos confia: com os leprosos e os crucificados do tempo de Francisco e de todos os tempos, com o lírios dos campos da Galileia e dos vales de Assis, com os campos sem lírios e as cidades sem pássaros do nosso tempo, com os irmãos e irmãs que o Senhor vai nos concedendo ao longo da vida.

Aqui em cima, no Monte Alverne, olhando para Francisco, tudo parece tão simples. O olhar vislumbra, num clarão de graça, o caminho de simplificação e de humanização do nosso ser inteiro. E compreendemos a simplicidade dos versos de Fernando Pessoa, que disse pela boca do seu heterônimo Alberto Caeiro:

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Nós como as árvores são árvores
E como os regatos são regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos mais.

E é simples assim o meu afeto por cada uma daquelas quatro mulheres e mais a Raquel, que já se encontra mergulhada no rio do amor trinitário.

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