sexta-feira, 18 de maio de 2012

Há um tempo para tudo...



Tempo de juntar, tempo de espalhar... Há 32 dias, a nossa fraternidade desta Experiência Assis encontrou-se pela primeira vez em São Paulo, Brasil. Há 28 dias chegamos à Itália. Visitamos as cidades de Roma, Assis, Foligno, Spoleto, Rieti, Cortona, Perugia e Gubbio. Rezamos nos eremitérios de Carcere, Monteluca, La Foresta, Poggio Bustone, Greccio, Fonte Colombo, Sacro Speco, La Celle, Montecasale e La Verna. Em cada um desses lugares rezamos e refletimos sobre os eventos da vida de Francisco e de Clara associados a cada um deles. Rezamos, refletimos, celebramos a eucaristia, tomamos juntos as refeições, rimos das situações cotidianas, criamos laços de fraternidade. 

Agora, é tempo de regressarmos ao nosso lugar de vida e de missão: dos extremos das fronteiras amazônicas do Brasil ao Rio Grande do Sul, do Nordeste ao Sudeste, passando pelo Centro Oeste. Não são apenas as malas que voltam mais cheias, recheadas de lembranças e de recordações para as pessoas queridas. É o coração de cada um, de cada uma, que volta alargado, para acolher e abrigar pessoas, lugares e momentos vividos nestes dias, todos eles, pessoas, lugares e momentos, manifestação da graça do mesmo Deus que transformou as vidas de Francisco e de Clara.


Um agradecimento especial ao Vani, nosso motorista que guiou o Baroni com segurança e tranquilidade pelas terras de Francisco e Clara. Valeu, Vani!


quinta-feira, 17 de maio de 2012

I tre compagni


No nosso itinerário aqui pelas terras de Francisco e Clara, fomos conduzidos pelos "Três Companheiros": Bernardete, responsável pela logística impecável da experiência, Ir. Jailda, que nos ajudou em toda a dimensão litúrgica-orante-celebrativa, e Fr. Marco Antônio, que nos ajudou na reflexão acerca dos eventos e dos lugares por onde passamos e rezamos. A cada um deles e à Ir. Renata, da Coordenação da Família Franciscana do Brasil, fica registrado aqui o nosso agradecimento por esse serviço fraterno prestado a todos nós.

Também é necessário agradecer a todos os nossos ministros e ministras provinciais pela oportunidade e graça que nos foram concedidas de conhecer os lugares santos do fanciscanismo na Itália. Esperamos que, de volta ao Brasil, possamos responder à altura o bem realizado nestes dias.



Aniversário da Ir. Maria do Carmo e despedida do Monte Alverne

Após o jantar de hoje, comemoramos o aniversário da Ir. Maria do Carmo. Também na intenção da sua vida celebramos a eucaristia no fim da tarde de hoje. Junto com a comemoração do aniversário, despedimo-nos dos frades e dos funcionários da hospearia do Monte Alverne, que de maneira fraterna nos acolheram nos dias em que estivemos aqui.








quarta-feira, 16 de maio de 2012

O rosto feminino do franciscanismo


O ROSTO FEMININO DO FRANCISCANISMO

Fr. Fabiano Aguilar Satler, ofm

O primeiro rosto do franciscanismo que eu conheci foi feminino. No ano de 1991, chegaram à minha pequena e interiorana cidade natal na região serrana do estado do Espírito Santo quatro irmãs da Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição: Leocádia, Rosa Nair, Raquel e Joana. Irmã Leocádia foi substituída pouco depois por Ir. Odélia. Irmã Raquel já se encontra na bem-aventurança eterna, depois de uma luta contra um câncer que a vitimou ainda jovem. Joana deixou a vida religiosa e trabalha como enfermeira. Rosa está, neste momento em que escrevo, em missão na Costa do Marfim. Carrego em meu coração em relação a todas e a cada uma delas um afeto e um carinho que, apesar da distância geográfica e cronológica, mantêm-se acesos e aquecem o meu coração.

À distância, sentado junto às oliveiras da igrejinha de São Damião, em Assis, com o mesmo sibilar do vento no meio das árvores e o mesmo canto dos pássaros do tempo de Clara e de Francisco, pergunto-me o que havia de tão marcante naquele grupo de religiosas a ponto de, com poucos meses de pura convivência e proximidade com elas, ter dado uma mudança de 180 graus na minha vida de universitário e ter abraçado, também eu, a vida franciscana? Houve algo naquelas mulheres que, em conjunto e individualmente, transformou a minha vida. Havia um perfume, um cheiro de algo diferente no ar que tocou as cordas do meu coração de uma maneira que eu teria dificuldade em descrever. Que perfume era esse? A resposta a essa pergunta é importante para que eu possa compreender e viver, como elas, aquilo que, acredito, sejam alguns elementos que ajudam a formar a identidade e o carisma franciscanos.

A primeira nota daquele perfume que carrego em minha memória afetiva é o acolhimento. Desde o meu primeiro contato com elas, fui prontamente acolhido. Quando eu estava na cidade - e, naquele ano, foram pelo menos três meses, devido a uma prolongada greve de professores da universidade - encontrava um tempo para estar com elas: tomar um cafezinho, jogar conversa fora, tomar juntos o jantar, rezar junto com elas uma oração complicada para mim, na altura, chamada Liturgia das Horas. Com elas rezei, pela primeira vez, uma celebração de nome estranho chamada Trânsito de São Francisco. Da boca da Raquel saíram as palavras que despertaram em mim o desejo transformado em determinação de ir para a missão ad gentes. Com Joana descobri que a alegria do Reino de Deus já pode ser vivida nesta vida. Foi essa a percepção imediata vinda delas, como a primeira sensação provocada em nosso olfato assim que se abre um pequeno frasco de perfume.

Depois que esse aroma assentou, comecei a notar algo mais sutil, uma nota diferente e mais persistente naquele perfume: bom humor e uma certa finesse, a versão feminina do cavalheirismo. Aquele era um grupo de irmãs bem-humoradas. Volta e meia, reunidos em torno da mesa, estávamos rindo de situações cotidianas, como na ocasião em que a Ir.  Leocádia, aflita, precisando levar reserva eucarística para um culto que seria celebrado em uma comunidade rural, teve que enfrentar a birra do zeloso monsenhor Aníbal, que escondera a chave do sacrário. Onde já viu, comunhão sem missa e, pior ainda, sem confissão antes, raciocinava ele, em seu genuíno zelo e santidade tridentinos. Se o humor é amor com h - e eu acredito que seja - aquele era um grupo de irmãs que se amavam e amavam as demais pessoas que com elas conviviam. Aquele bom humor trazia uma certa leveza, mas, jamais, superficialidade a elas. Ao bom humor associava-se uma finesse que dava uma certa elegância a elas. Com a Ir. Rosa aprendi que há uma maneira adequada de descarcar a banana e a laranja. Com a Ir. Odélia aprendi que há uma ordem precisa entre homem e mulher ao subir e descer escadas. Ao subir, homem à frente da mulher. Ao descer, mulher à frente do homem. Descobri, depois, que se tratava de uma regra lógica do tempo em que todas as mulheres usavam saias e o decoro era tão grande quanto as saias que elas usavam. Mudou-se o tempo, permaneceu o costume. Hoje, tais memórias me causam um certo riso, por parecerem antiquadas. Mas, recordo-me de Francisco de Assis, que aqui pertinho, nas ruelas de Assis, após a sua conversão, continuou a cantar em francês o amor de Deus, mantendo um certo espírito cavalheiresco. Lembro-me, também, da necessidade de comportarmo-nos de maneira adequada, de acordo com a ocasião: seja em um jantar formal servido por um embaixador, seja em uma refeição familiar no interior da África, onde as mãos substituem os talheres, de acordo com o costume. Entre judeus ou gregos, devemos nos adequar à realidade com naturalidade e bom humor.

Finalmente, uma terceira nota, a mais persistente delas nesse perfume franciscano, é a unidade fraterna. Aquela era uma fraternidade de verdade. É certo que, como todo grupo social, pequeno ou grande, havia situações de conflito e tensão entre elas. Tais ocasiões devem ter sido administradas de maneira adequada, pois eu, como uma pessoa de fora, nunca percebi os sinais de tensão entre elas, ou mesmo a murmuração de uma em relação à outra. Em um momento particularmente tenso na vida da comunidade paroquial, em que, a começar pelo pároco, todos ficaram doentes e muito distantes do evangelho proclamado e ouvido na igreja, aquelas irmãs representaram o único elemento de estabilidade naquela comunidade em ruptura com o evangelho. Nesse sentido, olhando para trás, percebo como foi providencial a ida e a presença delas em minha cidade naquele momento preciso. É interessante notar, em um contexto mais amplo da Igreja,  um certo desprezo com que muitas comunidades de irmãs são vistas pelos membros do clero, um desprezo mal disfarçado que beira à misoginia. Em muitas situações de conflitos e de instabilidades decorrentes de uma parte do clero com personalidade doentia, são elas que, junto com os demais fiéis, mantém viva a chama da fé e da unidade da Igreja. E aquela era uma comunidade que rezava. Uma recordação ficou marcada em mim: nas férias de fim de ano do meu postulantado franciscano, houve uma reunião com o representante enviado pelo bispo, no momento em que a tensão na comunidade chegou ao ápice com a remoção do pároco. Diante dos ânimos exaltados dos membros daquela comunidade dividida, reunidos no salão bem ao lado da residência das irmãs, Ir. Odélia chamou-me: vamos para a capela rezar juntos, pois, diante de tanta insensatez, somente Deus.

É claro que as irmãs faziam algo. Faziam o trabalho samaritano de enfermeiras na Santa Casa local e trabalhavam todas na pastoral paroquial, tanto nas comunidades rurais, quanto na sede. Também nesses trabalhos transparecia esse perfume franciscano, isto é, o que elas eram.

Olhando o que descrevi, podemos pensar de maneira acertada: não parece haver nesse modo de ser nada que não seja comum a qualquer grupo de irmãs, de qualquer ramo de congregação ou espiritualidade que seja. Na verdade, não se trata nem mesmo do modo de ser particular da vida consagrada na Igreja. O que elas eram e são deve ser o projeto de vida de qualquer batizado. Isso significa, então, que não há um perfume em que possamos colocar no rótulo do seu frasco perfume franciscano e que seja distinto de um perfume carmelita ou jesuíta?

Já não me encontro mais em Assis, mas, no Monte Alverne. Sentado aqui em um descampado aos pés do monte, onde o bosque cede espaço à relva misturada às flores, tenho diante de mim Francisco estigmatizado na gruta lá encima. O monte Alverne foi, na vida de Francisco, o ápice da sua identificação com o Cristo crucificado. Depois do Alverne, só restava a Francisco um último passo: ser consumido pelo Amor Trinitário na ressurreição. Olhando para trás, para todo o itinerário da vida de Francisco, o que encontramos? Nada de excepcional, sob certo ponto de vista: a compaixão com os leprosos, os mais excluídos do seu tempo, o amor fraterno entranhado pelos seus primeiros companheiros e por Clara, uma profunda reverência pelo Criador diante da beleza das suas criaturas, como estas que tenho diante dos olhos, o sentido de comunhão com a Igreja e com os seus pastores, a reverência pelos sacramentos, um desejo ardente de seguimento e de identificação com o Cristo encarnado e crucificado.  Tudo isso harmonizou-se de forma única aqui nas terras da Umbria, da Toscana e do Lascio, na pessoa de Francisco. Nele, a humanidade aflorou em um grau tal que podemor afirmar como São Boaventura: Francisco tornou-se um alter Christus, um outro Cristo, que é o humano por excelência. Em seu sermão sobre os estigmas de Sao Francisco, Pe. Antônio Vieira dirá o mesmo que Boaventura: vestis a Cristo e tereis Francisco; desnudais Francisco e tereis Cristo. E é exatamente isso que aquelas irmãs despertaram em mim: um senso de humanidade, uma busca de humanização como o único caminho possível em direção a Deus, tal e qual nos foi revelado pela encarnação do Verbo.

Talvez seja esse o nome do rótulo do perfume franciscano: humanização. Mas, esse é, voltamos a afirmar, o rótulo do próprio cristianismo. A nossa cristificação coincide com a nossa humanização. Essa humanização não é um processo egocêntrico e solitário. É um processo feito de mãos dadas com todas as criaturas que o Senhor nos confia: com os leprosos e os crucificados do tempo de Francisco e de todos os tempos, com o lírios dos campos da Galileia e dos vales de Assis, com os campos sem lírios e as cidades sem pássaros do nosso tempo, com os irmãos e irmãs que o Senhor vai nos concedendo ao longo da vida.

Aqui em cima, no Monte Alverne, olhando para Francisco, tudo parece tão simples. O olhar vislumbra, num clarão de graça, o caminho de simplificação e de humanização do nosso ser inteiro. E compreendemos a simplicidade dos versos de Fernando Pessoa, que disse pela boca do seu heterônimo Alberto Caeiro:

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Nós como as árvores são árvores
E como os regatos são regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos mais.

E é simples assim o meu afeto por cada uma daquelas quatro mulheres e mais a Raquel, que já se encontra mergulhada no rio do amor trinitário.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Aniversário da Ir. Jacinta

Neste dia 15 de maio, celebramos o aniversário de vida da Ir. Maria Jacinta. Parabéns, Ir. Jacinta. E que N. Sra. de Fátima continue a guiar a sua vida.




segunda-feira, 14 de maio de 2012

Despedida da Porciúncula


Nesta manhã de segunda-feira, após a celebração da eucaristia, despedimo-nos da Porciúncula e de Assis. Agradecemos às Irmãs Franciscas Missionárias de Jesus Menino, que nos acolhram em seu Centro de Espiritualidade bem ao lado de Santa Maria dos Anjos. Agora, estamos na estrada a caminho do Monte Alverne, ápice da identificação de Francisco com o crucificado. No caminho, uma parada no Eremitério de Monte Casale. Pranzo ao saco a postos...

domingo, 13 de maio de 2012

Domingo, 13 de Maio: Dia das mães e da Mãe em Fátima


Nesta manhã de domingos em que, no Brasil, é comemorado o Dia das Mães e, em Fátima, Portugal, é celebrada a Mãe de Deus, celebramos a nossa eucaristia diária na capela dedicada a Santa Clara, na basílica de Nossa Senhora dos Anjos. Nessa eucaristia, tivemos presentes todas as mães, vivas e falecidas, das/dos participantes desta Experiência de Assis. Delas, muitos de nós recebemos a fé que, agora, professamos e que buscamos viver.

Temos, em nosso meio, duas mães: Bernardete e Zélia, ambas franciscanas seculares. Por meio delas, todas as nossas mães sentaram-se conosco hoje nos bancos da pequena capela onde celebramos a eucaristia. 

Àquelas nossas mães vivas na nossa pátria materna, o Brasil, ou ressuscitadas e habitantes da nossa pátria definitiva, nos unimos, hoje, de um modo especial a todas vocês.

sábado, 12 de maio de 2012

A devoção mariana em Santa Maria dos Anjos


A compreensão do papel de Maria no plano da salvação equilibra-se entre dois erros opostos. Primeiro, o minimalismo mariano, comum em igrejas protestantes e evangélicas, que, ao acentuar a correta centralidade de Jesus, acabam por reduzir ou negar o papel de Maria no plano salvífico de Deus. No outro extremo situa-se o maximalismo mariano, comum em meios católicos e pentecostais católicos, em que Maria é elevada à condição de semi-deusa ao lado de Jesus.

Aqui em Santa Maria dos Anjos, assim como em Aparecida do Norte, o culto a Maria encontra o seu saudável e frutífero ponto de equilíbrio, de acordo com a sã tradição da Igreja e o ensinamento do Magistério, como temos vivido e rezado nestes dias.

Na noite dos sábados, após a oração do terço no interior da basílica, em frente à igrejinha da Porciúncula, acontece a procissão luminosa, com a imagem de Nossa Senhora dos Anjos à frente, pela imensa praça em frente à basílica.

Em um ambiente de silêncio e devoção, o terço é rezado e meditado pelos fiéis que lotam a basílica. O canto é executado de forma bonita e harmoniosa, sem a estridência que tem se tornado comum nas celebrações no Brasil. Beleza, silêncio e simplicidade dão-se as mãos para nos ajudar a reverenciar de maneira afetuosa essa mãe, cuja grandeza nos revela a bondade e a graça de Deus e o seu amor por toda a humanidade. E com Francisco, rezamos:


Ave Senhora, Rainha santa, santa Mãe de Deus Maria, 
que és virgem feita Igreja.
E escolhida pelo santíssimo Pai do céu, 
que Ele consagrou com seu santíssimo dileto Filho 
e com o Espírito Santo Paráclito,
na qual esteve e está toda a plenitude da graça e todo bem. 
Ave, palácio dele; ave tabernáculo dele; ave casa dele. 
Ave veste dele: ave serva dele; ave mãe dele. 
E vós todas santas virtudes,
que pela graça e iluminação do Espírito Santo 
sois infundidas nos corações dos fiéis, 
para que os façais de infiéis fiéis a Deus.

A toalha do altar de Clara



Assim o primeiro biógrafo de Clara narra os dias que se seguiram à sua fuga da casa paterna e à sua consagração na igrejinha da Porciúncula:


Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse Cristo junto ao leito da Virgem, São Francisco levou-a logo paraa igreja de São Paulo, para que ficasse lá até que o Altíssimo dispusesse outra coisa. Mal voou a seus familiares a notícia, e eles, com o coração dilacerado, reprovaram a ação e os projetos da moça. Juntaram-se e correram ao lugar para tentar conseguir o impossível. Recorreram à violência impetuosa, ao veneno dos conselhos, ao agrado das promessas, querendo convencê-la a sair dessa baixeza, indigna de sua linhagem e sem precedentes na região. Mas ela segurou as toalhas do altar e mostrou a cabeça tonsurada, garantindo que jamais poderiam afastá-la do serviço de Cristo. A coragem cresceu com o combate dos parentes e o amor ferido pelas injúrias lhe deu forças. Seu ânimo não esmoreceu nem seu fervor esfriou, mesmo sofrendo obstáculos por muitos dias no caminho do Senhor e com a oposição dos familiares a seu propósito de santidade. Entre insultos e ódios, temperou sua decisão na esperança, até que os parentes, derrotados, se acalmaram.

Na tarde de hoje, após uma visita a Perugia, onde Francisco fora feito prisioneiro de guerra até o pagamento do resgate pelo seu pai, visitamos essa igrejinha nos arredores de Assis. Mosteiro de monjas beneditinas no tempo de Clara, que a acolheram, a igrejinha ficou abandonada durante quase três séculos, até que fosse restaurada no século XIX. Em Assis, as pedras falam. E hoje, junto à pedra do altar, que é o próprio Cristo-pedra-angular, e que um dia Clara agarrou-se para enfrentar a fúria de seus parentes, fizemos a nossa oração.

Manhã de reflexão sobre Santa Clara

Na manhã deste sábado em que iremos a Perúgia e, lá, visitaremos as irmãs do mosteiro clariano, demos continuidade à reflexão, iniciada no dia anteior, sobre o carisma e a personalidade de Clara por meio das suas cartas aà sua amiga Inês dePraga, da biografia dela e do processo de canonização. A imagem que emerge é a de uma mulher profundamente humana e segura de si, a exemplo do próprio Francisco. Ela é mais uma prova viva de que não há santificação possível que não passe por um processo de permanente humanização nossa, até chegarmos a nos conformarmos o mais próximo ao próprio Cristo, o humano por excelência.





quinta-feira, 10 de maio de 2012

Gubbio: a fraternidade e a paz messiânica com toda a criação



Para Gubbio, situada cerca de 40 km de Assis, Francisco se dirigiu e aí permaneceu durante um breve período, depois que ele renunciou à herança paterna diante do bispo de Assis. Do amigo que o hospedou nessa cidade, recebeu o tecido para o seu primeiro hábito, inicialmente, o hábito de um eremita. Mas, o evento mais significativo ocorrido nessa cidade associado a Francisco foi a pacificação de uma loba que aterrorizava os moradores da região.


Talvez a imagem de Francisco como o santo da paz e da fraternidade com toda a criação seja a que se apresenta com maior força no meio da humanidade há séculos. O episódio com a loba de Gubbio ajudou a formar essa percepção. Outro elemento que corrabora essa verdade é o Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas, composto  por Francisco e finalizado por ele às vésperas da sua morte, quando ela é saudada como irmã morte na penúltima estrofe do cântico.

Assim, neste dia de hoje, dedicado pelos participantes desta Experiência de Assis à reflexão e à oração pela paz e por todas as criaturas, a atual crise ecológica esteve presente ao longo do dia. Em seu livro Ecologia: grito da terra, grito do pobre, Leonardo Boff mostrou que a mesma lógica e sistema econômico que criam pobreza e exclusão causam a atual degradação e crise ambiental. De maneira idêntica e em um raciocínio invertido, o cacique norte-americano sentenciou décadas antes: tudo o que fere a terra, fere, também, os filhos da terra.

Francisco e a criação





O CÂNTICO DA FRATERNIDADE CÓSMICA
Fr. Fabiano Aguilar Satler, ofm

A “Oração pela paz de São Francisco” é, certamente, um dos textos mais conhecidos do santo de Assis. Entretanto, essa oração, apesar de expressar de maneira simples e, ao mesmo tempo, profunda, o espírito de São Francisco de Assis, não foi escrita por ele. A sua composição remonta ao início do século XX, no contexto da I Guerra Mundial. Pouco tempo depois da sua difusão, foi atribuída a São Francisco.

Se queremos conhecer em profundidade e autenticidade a vida, a mística e o espírito de São Francisco, precisamos recorrer a uma das suas mais belas composições: o “Cântico do Irmão Sol”, uma das primeiras obras primas escritas em língua italiana antiga.

São Francisco, antes da sua conversão, era o chefe de um grupo de jovens e barulhentos trovadores da sua cidade natal. O ambiente do século em que ele viveu era marcado pela poesia e pela música da cavalaria, que, mais tarde, resultarão na lenda do Rei Artur e seus cavaleiros. Esse espírito cavalheiresco e de trovador não foi abandonado por Francisco após a sua conversão. Pelas ruas de Assis e dos burgos da região, ele, juntamente com seus companheiros, cantava louvores a Deus, chamando os seus ouvintes à conversão.


O Cântico do Irmão Sol carrega esse espírito trovador de Francisco. Entretanto, para conhecermos em profundidade o espírito presente nos versos desse cântico, é importante conhecermos o contexto em que ele foi gestado.


O Cântico do Sol é um cântico à luz. Mas esse cântico jorrou da noite mais escura e profunda. O período em que o Cântico do Irmão Sol começou a ser redigido foi um tempo particularmente difícil para Francisco. Dois anos antes de sua morte, após receber os estigmas do crucificado no monte Alverne, Francisco fez-se transportar até São Damião, local de moradia de Clara e suas irmãs. A própria Clara preparou-lhe uma palhoça com caniços e ramagem para protegê-lo da luz do dia. Uma doença dos olhos contraída durante sua estadia no oriente já o havia feito perder praticamente toda a visão. Nessa palhoça, Francisco passou mais de cinqüenta dias sem poder suportar a luz do sol ou do fogo à noite, com muito sofrimento causado pela sua doença. Nos raros momentos em que a dor lhe dava descanso e que ele conseguia dormir um pouco, eram tantos os ratos que corriam sobre ele que não conseguia descansar. Mesmo durante o dia e nos momentos de oração, os ratos não lhe davam descanso.


Foi nesse ambiente que Francisco começou a compor o seu Cântico do Irmão Sol, depois de receber a certeza de que participaria do reino celeste. Compôs os versos e a melodia para os mesmos, que ensinou aos seus irmãos. Instruiu esses mesmos irmãos a cantarem o cântico quando fossem pelo mundo e que o cantassem depois das pregações. Dizia que “Ao nascer do sol, deviam todos louvar a Deus por ter criado este astro, que durante o dia fornece luz aos nossos olhos; assim também, quando anoitece, todos deviam louvar a Deus por essa criatura, o nosso irmão fogo, que nos alumia os nossos olhos. Por isso nós devíamos, por estas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias, louvar sempre o seu glorioso Criador”. Nos momentos em que estava mais atormentado pelas suas enfermidades, ele começava a entoar o cântico e pedia aos irmãos que prosseguissem. E assim foi até a hora da sua morte.


Essa capacidade de louvar o sol, a luz e as demais criaturas, mesmo sem poder contemplá-las, resulta da pacificação que foi sendo operada na vida de Francisco desde a sua conversão. Francisco é uma pessoa reconciliada com a sua própria humanidade, com os seus limites, com os seus medos. E porque há essa reconciliação interior, todas as demais criaturas são vistas como irmãs, fráteres, sorelas. Por isso Francisco pode cantar: amo irmã Clara, amo o irmão sol, amo o irmão fogo, amo o irmão verme. E foi dessa fraternidade ecológica que nasceu um dos mais belos escritos místico-ecológico do ocidente: o Cântico do Irmão Sol.


A versão que se segue é a do cantor e compositor Zé Vicente, que guarda a poesia e a estrutura do cântico original.


Onipotente e bom Senhor,
a ti a honra, glória e louvor;
Todas as bênçãos de ti nos vêm
e todo o povo te diz: Amém!


Louvado sejas nas criaturas,
primeiro o sol lá nas alturas.
Clareia o dia, grande esplendor,
radiante imagem de ti, Senhor.


Louvado sejas pela irmã lua,
no céu criaste, é obra tua.
Pelas estrelas claras e belas
Tu és a fonte do brilho delas.


Louvado sejas pelo irmão vento
e pelas nuvens, o ar e o tempo,
E pela chuva que cai no chão
nos dás sustento, Deus da Criação.


Louvado sejas, meu bom Senhor,
pela irmã água e seu valor.
Preciosa e casta, humilde e boa,
se corre, um canto a ti entoa.


Louvado sejas, ó meu Senhor,
pelo irmão fogo e seu calor.
Clareia a noite, robusto e forte
belo e alegre, bendita sorte.


Sejas louvado pela irmã terra,
mãe que sustenta e nos governa
Produz os frutos, nos dá o pão
com flores e ervas sorri o chão.


Louvado sejas, meu bom Senhor,
pelas pessoas que em teu amor,
Perdoam e sofrem tribulação,
felicidade em ti encontrarão.


Louvado sejas pela irmã morte
que vem a todos, ao fraco e ao forte.
Feliz aquele que te amar,
a morte eterna não o matará.


Bem-aventurado quem guarda a paz
pois o Altíssimo o satisfaz.
Vamos louvar e agradecer,
com humildade, ao Senhor bendizer.

“Altíssimo, onipotente e bom Senhor, vossos são o louvor, a glória, a honra e toda bênção”. Assim Francisco inicia seu Cântico do Irmão Sol, afirmando já no início o sentido e a fonte de todo o louvor que se seguirá. Somente Deus é digno de ser louvado. Reaparece aqui mais uma vez a reação de Francisco contra o desejo latente que existe no ser humano de apropriação. Nada nos pertence e tudo pertence a Deus e somente a ele é devido o louvor. Na raiz da violência contra a vida de todas as criaturas está esse desejo que faz com que o ser humano disponha das demais vidas humanas e sacrifique o planeta de forma inconseqüente com as gerações que nos sucederão.

Mas, Francisco dá-se conta de que nem mesmo é possível louvar a Deus, pois “homem algum é digno de vos mencionar”. É então que ele se volta para toda a criação, espelho da bondade desse mesmo Deus. Há, primeiramente, um movimento em direção ao alto, que parece arrancar o homem da terra, distanciando-o das demais realidades terrenas. Mas, esse movimento de ascensão tomará, ao longo das demais estrofes, a direção horizontal da fraternidade com as criaturas.

Três pares aparecerão dispostos lado a lado ao longo do cântico: o sol e a lua, o vento e a água, o fogo e a terra. Há aqui um sentido de totalidade, sinal da integração daquela ecologia interior já referida anteriormente: três pares de elementos, entre os quais figuram os quatro elementos tidos como essenciais pela filosofia e mentalidade de então (ar, água, fogo e terra). As criaturas, transformadas em freis e irmãs – integração do masculino e do feminino, – são convidadas a louvar a Deus, de quem procede todo o bem.

A pessoa de Jesus aparece de forma implícita no cântico através de três elementos: do sol, figura de raízes bíblicas para indicar o messias esperado; através das trinta e três linhas do cântico original, referência à idade de Cristo no momento de sua morte; e através do confronto das primeiras com as últimas palavras do cântico: Jesus é o altíssimo que se fez humilde, é o onipotente que se fez servo de todos.

É importante notar que Francisco sabe reconhecer a utilidade de todas as criaturas, mas essa utilidade assume um caráter bem diferente do utilitarismo moderno que depreda a natureza em função de um suposto bem estar da humanidade. O sol é útil porque clareia o dia e nos ilumina; a água é útil e preciosa porque sacia a sede do homem e da terra, que por sua vez produz frutos, ervas e flores para os animais e para o ser humano; a lua e as estrelas no céu despertam no humano o sentimento do belo, da poesia.

O cântico prossegue convocando o homem e a mulher a louvarem a Deus através da reconciliação e da paz, que constituem o verdadeiro louvor para Francisco. Essa penúltima estrofe não fazia parte do cântico original. Foi acrescentada por Francisco em julho de 1226 para buscar a reconciliação entre o bispo e o podestá (o prefeito) de Assis. O bispo havia excomungado o podestá, que por sua vez, decretou que nenhum cidadão de Assis podia ter com ele qualquer relação comercial ou legal. Francisco pediu que ambos se reunissem no palácio do bispo e, quando lá se encontravam, dois frades levantaram-se e cantaram o cântico como Francisco lhes havia ordenado. Foi o suficiente ambos se reconciliarem e evitar uma guerra civil na cidade.

Como os demais elementos do cântico, o humano aparece em par com um segundo elemento. Reconciliado com todas as criaturas e com o seu semelhante, resta a Francisco e à humanidade a reconciliação definitiva com a morte, companheira inseparável do ser humano e de toda forma de vida. Este último verso do cântico foi composto no princípio de Outubro de 1226, poucos dias antes de sua própria morte. Quando sentiu-a próxima, pediu que o despissem e o colocassem nu sobre a terra que ele havia cantado como irmã e mãe. Nu sobre a terra, Francisco manifestou a radical condição humana face ao Absoluto, diante do qual nos apresentamos despidos de nossas máscaras, revestidos apenas com nossa pobreza. Mas esse gesto possui também um outro significado não menos importante: a reconciliação e o retorno do humano ao útero materno da terra, de Gaia.

E assim, cantando, Francisco morreu. Deixou-nos na saudade e na orfandade. Mas também herdeiros de uma riqueza místico-ecológica que pode ajudar a humanidade a sair do caminho da autodestruição em que tem enveredado.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Rivotorto e o leprosário de São Lázaro


No musical Chiara de Dio, um personagem atravessa todas as cenas, fazendo o papel de narrador e observador da vida de Francisco e Clara. O personagem, com uma voz arrastada, susurrada e pesada, é um leproso sempre envolto em trapos, cuja identidade somente é revelada no último instante: trata-se do próprio Cristo.

Os leprosos foram para Francisco aquilo que a sarça ardente fora para Moisés: teofania, manifestação do próprio Deus crucificado e desprezado. Por isso, ao ditar o seu testamento próximo à sua morte, Francisco faz memória do que os leprosos representaram na sua vida: "O Senhor assim deu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência: porque, como estava em pecados, parecia-me por demais amargo ver os leprosos. E o próprio Senhor me levou para o meio deles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo converteu-se paramim em doçuradaalma e do corpo; e depois parei um pouco e saí do século."


A meio caminho entre a Porciuncula e Rivotorto, encontra-se a igrejinha de Santa Madalena. Junto a ela havia, no tempo de Francisco, o leprosário de São Lázaro, que foi um lugar frequentado por Francisco.

Neste dia em que celebramos a eucaristia em Rivotorto, fizemos memória desse gesto de Francisco e de todos que se empenham na cura da lepra hoje, em suas manifestações antigas e novas, no Brasil e no mundo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O "hábito" de São Francisco


Irmã Lúcia sabia que, em Cortona, era conservado um autêntico hábito que fora usado por São Francisco e que Fr. Elias, Ministro Geral na ocasião da morte do santo, havia trazido para Cortona. Na visita ao eremitério onde Fr. Elias faleceu, alguém avisou a Ir. Lúcia que o dito hábito estava exposto fora do relicário para limpeza. Ela correu, abraçou a suposta relíquia e encheu os olhos de lágrimas pelo privilégio de poder afagar tamanha relíquia, tão maltratada e gasta, que era a cara do próprio santo. O frade capuchinho guardião do eremitério, ao ver aquela cena estranha, perguntou em espanhol a alguém do grupo: "O que aquela freira está fazendo abraçada com a estopa de limpar os pés da entrada da capela?"

Cortona: terra de Fr. Elias e de Santa Margarida


Na tarde do dia 8 visitamos outra importante cidade medieval, local de passagem e da pregação penitencial de Francisco: Cortona, na Toscana. Dois outros importantes personagens da história franciscana marcam esta cidade: fr. Elias e S. Margarida de Cortona.

Santa Margarida de Cortona, uma penitente e mística da Ordem Terceira Franciscana, aí viveu e faleceu em 1297. O seu corpo mumificado encontra-se exposto à veneração dos fiéis atrás do altar mor da igreja a ela dedicada.

Frei Elias de Assis, irmão leigo, íntimo de Francisco e de Clara, ministro geral da Ordem dos Frades Menores no momento da morte de São Francisco, idealizador e construtor da Basílica de São Francisco, em Assis, fundador da Custódia da Terra Santa, aqui nasceu e morreu, depois da perseguição e do ostracismo a que foi submetido pelos frades clérigos do seu tempo. O eremitério de Celle de Cortona, um lugar, como os demais eremitérios franciscanos, de natureza e beleza exuberante, está sob os cuidados dos frades menores capuchinhos desde o século XVI.

A figura de fr. Elias de Assis ou de Cortona é emblemática por marcar uma divisão de águas e de fato na Ordem dos Frades Menores: depois do seu generalato, os irmãos leigos foram proibidos de assumir serviços de governo na Ordem, criando uma situação discriminatória que persiste até hoje, ferindo a dimensão fraterna da Ordem que teve Francisco, o irmão universal, como fundador. Infelizmente, tal situação persistirá pelas gerações seguintes, devido ao atual contexto eclesial marcadamente clerical, que afeta diretamente a Ordem, e pela falta de empenho dos diferentes ramos da OFM em discutirem e refletirem seriamente sobre essa situação.

Eucaristia na igrejinha da Porciúncula


Na manhã do dia 8 de maio, celebramos a eucaristia na igrejinha da Porciúncula. Esta é uma igrejinha carregada de afeto e de importância para toda a família franciscana. Dedicada a Santa Maria dos Anjos, nela Francisco reuniu os seus irmãos, nela ele recebeu Clara, à volta dela os frades se reúnem em capítulo geral desde os tempos de Francisco, junto a ela Francisco faleceu em 1226. Mais recentemente, ela foi escolhida pelo papa João Paulo II para reunir, em 1986, líderes mundiais das diferentes tradições religiosas - cristãs e não cristãs - para uma jornada de oração pela paz. O bronze comemorativo dessa que foi uma das iniciativas e gestos mais significativos do papa João Paulo II encontra-se bem na entrada da Basílica. Nela, cantamos na celebração eucarística:

Brilho da manhã
Maria, templo e abrigo
Mãe de toda graça
Fogo, neve e flor
Porta sempre aberta
Rosa sem espinho
Eu te dou minha vida
Sou teu trovador

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Concurso Mala-sem-Alça


A Ir. Oneida bem que tentou se candidatar, na esperança de levar o prêmio. Até experimentou e coube direitinho dentro da mala do concurso. Entretanto, devido à sua simpatia e alegria, foi desclassificada pela equipe organizadora do concurso, por não preencher os requisitos de uma mala-sem-alça.

Chegada à Porciúncula: quanta mala!




Eremitério Sacro Speco


Cada eremitério franciscano que visitamos nos reserva agradáveis surpresas. Hoje foi a vez de Sacro Speco, em Narni, que leva esse nome devido à fenda (speco, em italiano) na rocha, onde Francisco se abrigava para rezar e estar sozinho. A fenda lembra uma imensa chaga na pedra bruta, como se Francisco quisesse se abrigar nas chagas do Salvador para aí rezar e experienciar a paixão, como de fato aconteceu, no Monte Alverne.

A irmã chuva, pela primeira vez em nosso itinerário, nos visitou, deixando o local com uma beleza diferente. Aqui, ao contemplarmos a combinação do paredão de rocha bruta e branca cercado por um verde exulberante do bosque de um lado e, por outro, da vastidão das montanhas e do vale desta parte da Umbria, compreende-se a profundidade da afirmação colocada na boca de Francisco pelo autor do Sacrum Commercium: o mundo é o nosso claustro.

Despedida de Rieti



Nesta manhã despedimo-nos das irmãs cabrinianas, que nos acolheram em sua casa em Rieti. Voltamos agora para Assis, desta vez para Santa Maria dos Anjos. No caminho, iremos parar no erémitério Sacro Speco, em Narni.


domingo, 6 de maio de 2012

Fonte Colombo



Vale do Rieti, Eremitério de Fonte Colombo. Com a visita a esse último eremitério, despedimo-nos deste vale abençoado pela sua paisagem e pela presença de Francisco e de seus companheiros aqui.

No eremitério de Fonte Colombo Francisco deu a forma definitiva à Regra de Vida dos Frades Menores no ano de 1223. Nesse mesmo ano a regra recebeu a bula papal de aprovação, cujo original encontra-se em exposição no Sacro Convento de São Francisco, em Assis. O outro original encontra-se nos arquivos do Vaticano. Assim, no dia de hoje, refletimos e rezamos sobre a nossa regra de vida, que consiste, pura e simplesmente, em "viver o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo", segundo as palavras do próprio Francisco, no início da Regra.

Também em Fonte Colombo Francisco foi cauterizado com um ferro em brasa, das têmporas aos olhos, por um medico de Rieti, na tentativa de curar uma doença nos olhos, agravada, provavelmente, depois da sua ida ao Egito e à Terra Santa. O único efeito desse "tratamento" deve ter sido substituir uma dor pela outra.

Em Fonte Colombo, fomos recebidos de uma maneira bem brasileira: calorosamente e em português. O irmão guardião que nos recebeu lá é irmão de coração deste que  vos escreve, companheiro de trabalho missionário durante anos em Moçambique. É essa uma das alegrias da vida franciscana: os irmãos e irmãs que Deus vai nos concedendo ao longo da vida, a começar pelo próprio Deus, que se doou a nós como irmão pela Encarnação.

sábado, 5 de maio de 2012

Nossa noite de natal

No fim do nosso dia em que vivemos e celebramos o mistério do natal em Grecio, nos reunimos na sala de encontros da casa onde estamos hospedados em Rieti e concluímos o nosso dia, que começou com presentes nas portas de todos os participantes (até mesmo dos participantes extra muri, hospedados em uma confortável casa na entrada do centro de hospedagem). Os amigos ocultos sorteados ainda em São Paulo, no Brasil, foram finalmente revelados, em um clima de muita alegria e confraternização. Não é esse o clima do natal?




A linguagem do natal



Diante do mistério de Deus que vem ao encontro da humanidade, a linguagem teológica se vê limitada para descrever a grandeza desse evento. Então, a linguagem poética vem em nosso auxílio e ela, mais do que a linguagem teológica, abre as portas do nosso entendimento para a compreensão cordial e afetuosa do mistério do natal. É o que conseguiu fazer João Cabral de Melo Neto, com o seu auto de natal pernambucano, o seu Morte e Vida Severina, que finda assim:

Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.


E não há melhor resposta  
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
 

A mensagem do natal em Grecio



A PALAVRA DE FEZ POESIA
Fr. Fabiano Aguilar Satler, ofm


“O homem quer subir, e o Verbo quer descer. Assim se encontram a meio caminho, no centro, no lugar medianeiro. Cruzam-se porém como espadas, porque os seus desejos se opõem.”

Hans U. Balthasar



É realmente paradoxal. Em nenhum outro momento Deus e o ser humano trilharam caminhos tão divergentes quanto no momento em que Deus decidiu vir ao encontro definitivo da sua criatura.
O ser humano quer se elevar até Deus. A Torre de Babel, os zigurates babilônicos, a ascese, a mortificação, a elevação do espírito, a fuga do mundo, os lugares altos, a gnose, tudo isso revela o esforço para nos desprendermos de uma realidade demasiadamente humana e irrompermos em direção à realidade do Sagrado que parece nos atrair para o alto.
Deus, porém, ignorando todo esse esforço humano, ordena: “Regressa, vermezinho. Desce e volta ao chão da tua humanidade. É no meio da estrada da humanidade que havemos de nos encontrar. É trilhando o caminho dos homens que eu vou trilhar que finalmente chegarás a mim.”
Na introdução do seu Evangelho, João resume de maneira magistral esse caminho assumido por Deus, a Encarnação do Verbo: “A Palavra se fez carne e veio habitar no meio de nós” (Jo 1,14). Deus desceu das alturas e armou a sua tenda no meio da humanidade. No ventre de Maria, fez-se carne da nossa carne e sangue do nosso sangue. Na pequena oficina de José, fez-se trabalhador e filho.
O mistério da Encarnação de Deus celebrado no Natal pode ser apreendido corretamente, num primeiro momento, como o fato de que Deus assumiu um corpo humano.
O nosso corpo é a expressão mais clara da nossa existência, é o centro de irradiação da nossa presença. Pelo nosso pensamento e pela nossa capacidade de amar, expandimos o nosso corpo até as pessoas e as realidades amadas. Não sou do tamanho do meu corpo. Sou do tamanho daquilo que amo. Mas, é a partir do meu corpo visível que alcanço, com meus pensamentos de amor, as realidades amadas, por mais distantes que se encontrem.
É com o nosso corpo que nos relacionamos com as demais pessoas e criaturas, é com nossos braços que acolhemos as pessoas amadas e nos reconciliamos com quem nos feriu. É com o corpo que homem e mulher se juntam para gerar nova vida.
A Encarnação do Verbo num corpo humano, portanto, deita por terra certa compreensão da nossa corporeidade que vê o nosso corpo como obstáculo à santificação e à união divina, numa atitude esquizofrênica que proclama a ressurreição do corpo após a morte, ao mesmo tempo em que busca a sua mortificação durante a vida presente.
Uma verdade fundamental expressa com a Encarnação da Palavra de Deus é simples: o corpo de que somos formados e a matéria em que nos inserimos são bons em si mesmos. Toda a matéria e toda a vida têm a sua origem nas relações amorosas da Comunhão  Trinitária. Entretanto, não podemos reduzir a Encarnação da Palavra Divina ao fato de que um corpo físico foi formado no seio de Maria para acolher a Palavra, por mais grandiosa que seja essa dimensão corpórea da Encarnação. Para podermos entender a profundidade e o sentido desta afirmação do Evangelista João - E a Palavra se fez carne e veio habitar no meio de nós -, poderíamos desenvolvê-la da seguinte forma:
A Palavra se fez comunicação, se fez juras de amor entre os enamorados, se fez música e poesia, se fez dança e festa, se fez refeição e confraternização, se fez oração solitária e oração compartilhada, se fez comunhão de vida e união de corações.
A Palavra se fez mão samaritana para socorrer quem está caído, se fez abraço para acolher os pecadores, se fez encontros que curam e que libertam, se fez gestos de amor entre pais e filhos, entre marido e mulher e entre companheiros de caminhada.
A Palavra se fez jovem e idoso, se fez homem e mulher, se fez criança com Síndrome de Down e criança autista, se fez pai e se fez mãe. A Palavra se fez dor e enfermidade, se fez silêncio e solidão, se fez ira e agressividade, se fez grito dilacerante de abandono, se fez sofrimento e morte.
Se apanharmos emprestada a poesia de Cora Coralina, poderíamos dizer que a Palavra se fez

Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais, mas que seja intensa,
verdadeira, pura...Enquanto durar.

Em resumo: tudo aquilo que é humano – o pecado fica de fora, pois ele é justamente o que nos desumaniza – foi assumido, santificado e plenificado pela Encarnação de Deus no ventre de Maria e nas realidades mundanas. O humano é querido e amado por Deus. Não há, portanto, caminho de salvação possível fora da nossa realidade humana. Apenas conhecendo, assumindo, amando e transformando a nossa própria realidade humana é que seremos capazes de trilhar o caminho de salvação inaugurado por Jesus, a Palavra feita humanidade.


Quem pensa que o caminho de santificação passa por uma fuga das nossas realidades humanas – por mais conflituosas que possam parecer – faz o caminho inverso daquele assumido por Jesus. Mas, também esses serão, um dia, iluminados em sua humanidade pelo Verbo, “Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1,9).

Hoje é natal!


Dois eremitérios se destacam na vida de Francisco e na espiritualidade franciscana: Monte Alverne, ponto final da nossa jornada, e Grecio, visitado por nós hoje.

No Monte Alverne Francisco recebeu os estigmas do crucificado em 1224. Em Grecio Francisco celebrou o natal em 1223, representando em uma das grutas do monte, por meio de um boi, um burro e palha sobre um cocho, o nascimento de Jesus. Esses dois lugares fazem memória dos dois centros da espiritualidade e da vida de Francisco: a Encarnação e a Paixão. Unindo esses dois polos está e Eucaristia. O mesmo Salvador que veio até nós no ventre de Maria e no presépio é o que continuamente vem a nós por meio da eucaristia. O mesmo salvador que doou a sua vida por nós na cruz é o que se doa a nós na eucaristia.

Neste lugar santo celebramos a nossa eucaristia de natal, iluminados pela leitura do profeta Isaías: O povo que andava nas trevas viu brilhar uma luz! O presépio está presente em todos os lugares do eremitério: dentro da igreja e na exposição permanente de presépios de todo o mundo, lembrando que a luz que veio ao mundo, veio para iluminar todos os povos e culturas.

Ao longo do dia, vamos continuar celebrando o nosso natal. Aqui em Grecio, todo dia é natal!


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Andorinhas na beira do telhado no eremitério de São Francisco em Poggio Bustone


Rieti: Eremitérios La Foresta e Poggio Bustone


De Spoleto, seguimos viagem para o vale do Rieti. À volta dessa cidade do tempo dos romanos, que chegou a abrigar a corte papal, há quatro importantes eremitérios franciscanos: La Foresta, Poggio Bustone, Grecio e Fonte Colombo. A beleza da região é indescritível. A cada dia da Experiência somos brindados com regiões e paisagens  ainda mais belas que as anteriores. Na verdade, cada região, cada cidade, cada igreja, cada eremitério tem uma beleza própria.

Também a cada dia da Experiência vamos adentrando no coração da espiritualidade e da mística franciscana. Deixando para trás e no coração o burburinho dos turistas em Assis, vamos sendo introduzidos no silêncio dos eremitérios e dos santuários ecológicos onde eles se encontram.

O primeiro deles visitado em Rieti foi La Foresta. Também nesse local já havia a presença de eremitas antes de Francisco, reunidos em torno da igrejinha dedicada a São Fabiano. Aí junto dessa igrejinha Francisco permaneceu durante cerca de quatro meses. Nesse local aconteceu o milagre do vinho do padre que teve a sua vinha devastada pelos peregrinos famintos que queriam conhecer o já famoso Francisco. No local funciona, atualmente, uma comunidade do Mundo X, dedicado à recuperação de jovens com alguma forma de vício: drogas, álcool, jogos ou mesmo internet.

O segundo eremitério visitado foi o de Poggio Bustone. A beleza do local é indescritível. Subimos todo o bosque até chegarmos à gruta onde Francisco se abrigava e onde ele experienciou a compaixão de Deus e teve a certeza do perdão de todos os seus pecados.   Também a partir deste eremitério Francisco enviou os seus primeiros companheiros dois a dois para anunciarem a penitência e a salvação.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Spoleto: Eremitério de Monteluca


Depois de visitarmos Foligno, onde Francisco, antes da sua conversão, foi a cavalo e vendeu aí os tecidos de seu pai, juntamente com o próprio cavalo, entregando o dinheiro obtido ao padre da igrejinha de São Damião, chegamos, finalmente, a Spoleto, outra importante cidade medieval do tempo de Francisco.

Antes de visitarmos a cidade de Spoleto, subimos o Monteluca, um importante local de tradição eremítica anterior a Francisco. Nesse monte em frente a Spoleto, instalaram-se eremitas fugidos do Monte Atos, na Grécia, em tempos anteriores a Francisco. Aí ergueram uma pequena ermida dedicada a Santa Catarina. São Francisco e Santo Antônio viveram períodos de eremitério nas grutas desse monte, que passou a contar com a presença de frades eremitas desde então.

Atualmente, no local funciona o postulantado dos frades menores da Umbria.

A caminho de Foligno: a OFS e a pregação às aves

À beira da estrada,no nosso trajeto até Foligno, há um pequeno oratório. Foi nesta região que, segundo a tradição, Francisco pregou às aves, um episódio narrado nas fontes franciscanas e um dos afrescos clássicos de Gioto na basílica de São Francisco, em Assis. Também foi nesta região que a tradição associa o nascimento da Ordem Franciscana Secular. Neste local, fizemos a nossa oração, tendo em nossos corações, de um modo especial, o carisma e a vida dos nossos irmãos e irmãs da OFS.






quarta-feira, 2 de maio de 2012

Despedida de Assis

No dia 3 de maio, despedimo-nos de Assis. Ainda voltaremos à cidade, mas, ficaremos hospedados fora dos muros, ao lado de Santa Maria dos Anjos. Na noite do dia 2, despedimo-nos das irmãs franciscanas alcantarinas, que fraternalmente nos acolheram em sua casa, bem próxima à praça comunal de Assis.








Eucaristia junto ao túmulo de São Francisco


No nosso último dia dentro dos muros da cidade de Assis, celebramos, na manhã do dia 2 de maio, a eucaristia na cripta da basílica de São Francisco, junto ao túmulo do nosso pai e fundador. A eucaristia marcava, já, o início da nossa despedida desta cidade tão abundantemente abençoada pela presença de Francisco, Clara e seus seguidores. Com o fim do feriado, acidade retomou a sua tranquilidade. À tarde, pudemos voltar aos outros santuários da cidade. São Damião, a exemplo da basílica de São Francisco, recuperou a sua paz e silêncio.

Aniversário da Ir. Nair Marize

Na noite deste feriado do Dia do Trabalhador, celebramos, com muita alegria o aniversário da Ir. Nair. Depois dos parabéns e de comer um bolo gostoso, houve muita cantoria.




terça-feira, 1 de maio de 2012

Basílica de Santa Clara



Na manhã deste feriado de 1 de maio celebramos a eucaristia na basílica onde repousam os restos mortais de Clara e que guardou, também, o corpo de Francisco de 1226 até 1230, quando foi concluída a basílica construída em sua honra.

Para este lugar as seguidoras de Clara mudaram-se de São Damião três anos após a morte de Clara. Trouxeram consigo o crucifixo original de São Damião, que se encontra na capela junto à clausura.

Na capela lateral que guarda os restos mortais da Bem-aventurada Inês de Assis, irmã de Santa Clara, celebramos a nossa eucaristia.

A pessoa ímpar de Santa Clara, a sua personalidade, a sua firmeza evangélica, o papel desempenhado por ela no movimento franciscano primitivo merecem uma reflexão à parte. Por hora, basta afirmar que estamos diante de uma mulher que, como outras na história da humanidade, estiveram à frente do seu tempo, tornando-se, por isso mesmo, atemporais.

Calendimaggio - Festa da primavera



Apresentação na praça da igreja de Santa Clara na tarde do dia 1 de maio.

O turista ou peregrino que visita Assis no início do mes de maio tem um motivo a mais para levar no coração boas recordações da cidade: o Festival de Calendimaggio de Assis, uma festa sazonal que ocorre no início de maio (neste ano de 2012, nos dias 3, 4 e 5 de maio), realizado para comemorar a chegada da primavera. Nesses dias, os moradores da cidade voltam ao passado e revivem uma grande festa medieval: figurinos, músicas, danças, desfiles, flâmulas, torneios, teatros, comidas e bebidas, tudo isso somado à arquitetura medieval da cidade nos remetem ao tempo da cavalaria e do amor trovador do tempo de Francisco e dos seus primeiros companheiros, com uma diferença fundamental: já não há guerras entre as cidades vizinhas, mas apenas alegria e confraternização.

Para saber mais, acesse www.calendimaggiodiassisi.it.

Reflexões acerca da solidão nos eremitérios



segunda-feira, 30 de abril de 2012

Eremitério do Cárcere



Estou no meio de um bosque, no alto de um monte, no meio um país estrangeiro, postando algo por meio da internet de um celular. Esse é um dos pequenos milagres que a tecnologia tem nos prestado. Tecnologia a serviço da comunhão, tecnologia a serviço da destruição. A mão que faz a bomba, faz o samba. Entre a tecnologia e o seu uso está o ser humano, capaz de decisões que levam à vida ou à morte.

Estou no meio do bosque no alto do Monte Subasio, na Itália, de frente para Assis. Um ou dois quilômetros abaixo, na estrada, está o eremitério do Cárcere, onde Francisco passava longos períodos de recolhimento e de solidão. A solidão é algo que assusta as pessoas. Entretanto, quando se descobre nela o espaço de encontro e de confronto com as nossas trevas interiores, à luz da graça terapêutica de Deus, reconciliamo-nos com a solidão e o coração acaba por apanhar gosto por estar sozinho. A solidão nos prepara para encontros verdadeiros com tudo aquilo que seja alteridade em relação a nós: Deus, as demais pessoas e as demais criaturas. A natureza e a beleza deste eremitério são únicos. Aqui compreende-se um pouco a personalidade ecológica de Francisco de Assis.

Infelizmente, hoje é feriado nacional na Itália. Levas e mais levas de turistas adentram pelo portão que dá acesso ao santuário. Não há silêncio, não ha clima de recolhimento. No coração restam a esperança e o desejo de que cada um deles, dos adolescentes aos idosos, compreendam e sejam transformados pelos valores e pela fé que Francisco viveu aqui. Felizmente, fora desses períodos, o eremitério retoma o seu ambiente de silêncio e de sacralidade teológica e ecológica.

Por isso, hoje, para rezar e para ficar sozinho, é preciso estar aqui bem cedinho e sair antes que os turistas cheguem. Às 7h30min da manhã pode-se participar da oração das laudes e da eucaristia com os frades e com as irmãs. Depois, basta subir o Monte Subasio um pouquinho mais e reencontramos o mesmo silêncio, o mesmo canto do vento nas árvores e a mesma melodia dos pássaros do tempo de Francisco. O coração serena e aquieta-se. Fosse apenas isso a vida e estaria perfeito. Infelizmente, há violência e degradação ambiental lá embaixo. Portanto, é um imperativo descer o monte e nos misturarmos à multidão ruidosa lá embaixo. Foi assim com Jesus de Nazaré. Foi assim com Francisco de Assis e de Cristo.

Fim do intervalo do lanche. Fim da transmissão. Câmbio. Desligo.